Caminhar é o modo de transporte mais elementar de todos. Mesmo quem usa ônibus, metrô, trem, bicicleta ou carro é pedestre em algum momento do dia. Ainda assim, a infraestrutura voltada para quem caminha muitas vezes é tratada como algo secundário no planejamento urbano. E, quando olhamos para onde essa infraestrutura está localizada, fica evidente que o problema também é territorial.
No Maio Amarelo de 2026, o Instituto Corrida Amiga publicou a nota técnica “Travessias seguras e desigualdade territorial em São Paulo”, com dados sobre semáforos de pedestres, atropelamentos e viagens a pé na capital paulista. A análise cruzou informações públicas do Infosiga-SP, GeoSampa, Pesquisa Origem e Destino 2023 e dados obtidos via Lei de Acesso à Informação junto à CET-SP e à SP Regula.
Os números chamam atenção. São Paulo registra cerca de 5,5 milhões de viagens a pé por dia. Entre 2022 e 2025, foram contabilizados 13.462 atropelamentos de pedestres. Ao mesmo tempo, a cidade possui 4.149 semáforos de pedestres, sendo que apenas 172 contam com botoeira sonora, recurso importante para pessoas com deficiência visual. Equipamentos com contagem regressiva são ainda mais raros: somente 25 em toda a cidade.

Um dos principais achados da nota técnica é a desigualdade entre o Centro Expandido e os demais distritos. Embora 81,7% das viagens a pé aconteçam fora do Centro Expandido, esses territórios concentram apenas 62,4% da infraestrutura semafórica voltada para pedestres. Na prática, o Centro Expandido conta com aproximadamente 15 semáforos de pedestres para cada 10 mil viagens a pé, enquanto os demais distritos têm apenas 6. Ou seja: onde mais se caminha, nem sempre há mais proteção.
Também é importante lembrar que não basta existir um semáforo. A travessia precisa ser segura, acessível e confortável para diferentes pessoas: crianças, idosos, pessoas com deficiência, pessoas carregando sacolas ou empurrando carrinhos de bebê. Tempos de travessia muito curtos, ausência de contagem regressiva e sinalizações confusas, como o vermelho piscante, podem tornar a experiência insegura para quem caminha.
A nota também levanta uma reflexão sobre o uso da tecnologia na mobilidade urbana. Semáforos inteligentes podem melhorar a segurança viária, mas, se forem pensados apenas para a fluidez dos veículos, acabam reforçando desigualdades. A tecnologia precisa servir também às pessoas que caminham, especialmente em áreas onde há mais deslocamentos a pé e maior risco de atropelamentos.
Discutir travessias seguras é discutir o direito de ir e vir. Para enfrentar esse problema, é necessário revisar tempos semafóricos, ampliar recursos de acessibilidade, instalar equipamentos onde há maior vulnerabilidade e planejar a cidade a partir da realidade de quem caminha todos os dias. Uma cidade mais segura para pedestres é uma cidade mais justa para todos.
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