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Walk21: pessoas em primeiro lugar!

Gabriela Callejas pelas ruas de Hong Kong com os organizadores do Walk21 Fonte: Civic Exchange

Andar a pé é cada vez mais reconhecido não apenas como um componente importante dos sistemas de mobilidade das cidades mas, sobretudo, como um importante meio para melhorar a qualidade de vida da população. E em ambientes urbanos de alta densidade — como Hong Kong — é mais necessário do que nunca uma abordagem estratégica para o caminhar.

O mundo vem se tornando cada vez mais urbanizado e há de se garantir que essas cidades sejam acessíveis para todas as pessoas que vivem, trabalham, brincam e se deslocam nelas.

Neste sentido, o Walk21 é uma organização internacional que tem como objetivo promover a mobilidade a pé pelo mundo por meio de uma rede global de instituições, organizações e atores que também atuam em prol desta causa. O nome Walk21 é uma abreviatura de “Walking in XXI century” — caminhando no século XXI.

Uma das missões do Walk21 é promover anualmente a maior conferência sobre o tema, a “Walk21 Conference”, no intuito de agregar melhores práticas e iniciativas sobre mobilidade a pé. Em sua 17ª edição, o evento foi realizado em Hong Kong, entre os dias 3–7 outubro de 2016 no centro de convenções e exposições local e tinha como enfoque quatro principais temas: 1) Walking Between Layers: creating a walkable environment in vertical cities; 2) Walking with Multiple Benefits: creating an age-friendly, socially inclusive, safe, low-carbon and resilient environment; 3) Walking Smart: using information and technology to enhance walking; e 4) Walking Together: nurturing partnerships and dialogue among policy makers, business leaders, local communities and stakeholders.

O Walk21 Hong Kong contou com apresentações do mundo todo nas sessões plenárias, especialistas de diversas áreas — administração pública, planejamento e projeto, setor privado, universidades, organizações da sociedade civil, organizações internacionais.

No âmbito do tema “walking together” (caminhando juntos), as ONGs Corrida Amiga e Cidade Ativa, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade, apresentaram os resultados da pesquisa Como Anda, um mapeamento de organizações brasileiras que atuam pela mobilidade a pé.

Gabriela Callejas e Silvia Stuchi mostraram — com imenso orgulho — o que as entidades brasileiras estão fazendo por aqui. De modo geral, houve um grande interesse na pesquisa, reconhecimento e interação com atores importantes do tema (International Federation of Pedestrians, organização do Walk21, Liga Peatonal — México , Universidade de Melbourne — Austrália, entre outros) e foram abertas oportunidades para expansão internacional do mapeamento de atores que atuam em prol da mobilidade a pé.
Assembleia do Conselho da International Federation of Pedestrians. Nela, foi apresentada a versão em inglês da “Carta de Direitos do Pedestre” da Liga Peatonal no marco do Walk21.

Durante a conferência, foi disseminado conhecimento de alta qualidade em termos de política, planejamento, programas e projetos sobre andar a pé. Foram apresentadas ainda metodologias[1] e cases[2] de cidades com boas políticas voltadas aos pedestres, incentivando o andar a pé como um saudável e eficiente meio de transporte, integrando-o ao transporte público e pensando um ordenamento do território favorável ao pedestre.

Ester Cerin, no Walk21HK, evidenciando a relação positiva entre cidades caminháveis e população mais saudável Fonte: Civic Exchange

Pesquisas interessantíssimascomo as da australiana Ester Cerin trouxeram evidências para defender a tese de que cidades caminháveis são solução global para combater pandemias relacionadas ao sedentarismo: pessoas que vivem em bairros mais caminháveis tendem a praticar 90 minutos/semana a mais de atividade física do que aquelas que vivem em bairros menos caminháveis. Isso que equivale a cerca de 60% dos 150 minutos por semana recomendados pela OMS para prática de atividade física.

Ficou claro que o envolvimento de todas as partes interessadas é ponto central para que cidades caminháveis de fato aconteçam. Especialmente, no tocante à conectividade e intermodalidade. Um bom exemplo é a estratégia praticada pela empresa de metrô de Hong Kong responsável pelo sistema de transporte, a MTR. Muitas pessoas podem caminhar de seus apartamentos ou locais de trabalho diretamente para as estações de metrô — sem pisar na rua!. A MTR possui muitos terrenos e, por isso, é uma das grandes incorporadoras de Hong Kong, podendo planejar estes novos edifícios integrados às estações de metrô. O setor imobiliário também tira partido desta estratégia, conectando seus empreendimentos a esta rede de passarelas. Por um lado, perceberam que isso é muito valorizado pelos usuários; por outro, recebem incentivos (como área adicional de construção) para fazê-lo (Andrew Mead, Chief Architect, MTR Corporation, Hong Kong).

Gabriela Callejas apresentando os dados da pesquisa Como Anda Fonte: Civic Exchange

Para avaliar a qualidade da cobertura da rede de transporte público é importante ter dados precisos sobre as distâncias a pé percorridas pelos passageiros até a estação mais próxima. Neste sentido, o walkalicts, por meio de um banco de dados sobre o andar a pé, busca fornecer informações em termos de velocidade, fluxo, distâncias etc. e, assim, embasar pesquisas, projetos e políticas públicas mais acurados e condizentes com a realidade local.

Ainda sobre dados, foi apresentado por Daniel Sauter a dificuldade em se comparar informações sobre o uso do modo a pé nas cidades do mundo. Segundo ele, a maioria das pesquisas tipo “origem-destino” levantam apenas o principal modo utilizado na viagem do usuário e, como “principal” normalmente adota-se o meio de transporte que cumpriu maior distância no deslocamento. No entanto, todos sabem que muitos modos de transporte são acompanhados do deslocamento a pé e este, muitas vezes, é o que consome maior tempo do deslocamento, mas não a maior distância — este detalhe, tão importante, passa desapercebido pelas metodologias largamente empregadas. Sauter fez, então, um convite para que especialistas e governos utilizem o International Walking Data Standard[3], lançado no Walk 21 de Viena, em 2015, para que os dados entre as diferentes cidades do mundo possam ser analisados em conjunto.

Tema em pauta nas eleições da cidade de São Paulo, foi consensuado por toda a conferência que redução de velocidade é medida base para que se garanta a segurança das pessoas na cidade bem como para reduzir significativamente o número de mortes no trânsito. A exemplo do programa “Community for road safety”. A equipe do Como Anda, neste momento, teve a clareza de que eventos como esse podem ajudar a orientar políticas projetos locais — um debate similar, em uma cidade brasileira, seria muito frutífero.

Por fim, fica a sensação de que há muitas pessoas em todo o mundo trabalhando para torná-lo mais seguro e mais confortável para andar a pé. E, por aqui, a pesquisa Como Anda é prova viva disso! Avante caminhantes!

[1]Measuring walking; Índice de Caminhabilidade (ITDP); Walkalicts.

[2]Des Vœux Road Central Project; Smart Mobility in East Kowloon; Harbour Loop; living streets; Cheonggyecheon Stream

[3]walking data standard

Programação completa do evento disponível aqui

Apresentações disponíveis aqui

Fonte: Medium Como Anda

camiga

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